Depois de muitos anos cuidando de mulheres, aprendi que uma parte importante da saúde acontece antes do diagnóstico.
Ela começa na capacidade de perceber o próprio corpo.
Parece simples. Mas não é.
Vivemos em uma rotina tão acelerada que nos acostumamos a funcionar mesmo quando alguma coisa não está bem. Trabalhamos cansadas. Dormimos mal. Comemos depressa. Aceitamos uma dor porque “não é nada demais”. Normalizamos a perda de disposição, a mudança no intestino, a irritabilidade, a perda de força ou uma sexualidade que deixou de ser prazerosa.
E seguimos.
Às vezes durante semanas. Outras vezes durante anos.
Até que, em algum momento, o corpo precisa falar mais alto.
O corpo realmente “fala”?
Gosto muito dessa expressão, embora ela seja uma metáfora.
Nosso organismo envia continuamente informações sobre o que está acontecendo: fome, sede, temperatura, batimentos cardíacos, respiração, saciedade, tensão, dor, fadiga e inúmeras outras sensações.
A neurociência chama de interocepção o processo pelo qual o sistema nervoso percebe, interpreta e integra sinais provenientes do interior do corpo. Essa percepção participa da regulação do organismo e se relaciona às experiências emocionais e cognitivas.
Mas existe uma nuance importante.
Perceber, prestar atenção e interpretar corretamente os sinais do corpo não são exatamente a mesma coisa.
Estudos sobre interocepção mostram que a capacidade objetiva de detectar determinados sinais, a percepção subjetiva de “ser boa em perceber o corpo” e a consciência sobre a precisão dessa percepção são dimensões diferentes. Em outras palavras: prestar muita atenção ao corpo não significa necessariamente compreender melhor tudo o que sentimos.
Talvez esteja justamente aí a diferença entre consciência corporal e vigilância excessiva.
Conhecer não é procurar doença
Na mastologia, utilizamos um conceito semelhante há bastante tempo: a consciência mamária.
A proposta atual não é ensinar a mulher a procurar obsessivamente um nódulo por meio de uma técnica rígida de autoexame mensal. É conhecer suas mamas, perceber como habitualmente são e valorizar uma mudança quando ela aparece.
Essa estratégia de consciência mamária, em inglês breast awareness, significa observar e palpar as mamas nas situações habituais da vida, sem periodicidade obrigatória, procurando avaliação médica diante de uma alteração suspeita.
Acredito que podemos transportar parte dessa lógica para a saúde como um todo.
Não para procurar doenças todos os dias.
Mas para conhecer nosso padrão e perceber quando ele se modifica.
Em quantas coisas aprendemos a falar: “É normal?”
Essa é uma pergunta que me interessa particularmente.
A mulher que passou a dormir mal e decidiu que isso é inevitável depois dos 50.
Aquela que perdeu força e acredita que está simplesmente “ficando velha”.
Outra que está perdendo urina (“soltando xixi”) em momentos onde isso não acontecia.
A que deixou de ter prazer nas relações sexuais e nunca comentou sobre isso em uma consulta.
A paciente que continua exausta meses depois de terminar um tratamento e se cobra porque acredita que já deveria ter voltado ao normal.
Ou aquela que percebe algo diferente, mas adia a avaliação porque tem medo de estar exagerando.
A menopausa é um bom exemplo. Durante essa transição podem ocorrer sintomas vasomotores (fogachos ou calores), alterações do sono e do humor, secura vaginal, sintomas urinários e modificações na sexualidade. Mas a intensidade e a combinação desses sintomas variam muito de uma mulher para outra. A própria The Menopause Society ressalta que, nessa fase, pode ser difícil diferenciar o que está relacionado à menopausa, ao envelhecimento ou a outra condição de saúde.
Por isso, gosto de repetir:
Idade não é diagnóstico. Menopausa também não é explicação para tudo. E estresse tampouco.Dra. Simone Elias
E onde entra a psicossomática?
Talvez poucas palavras sejam tão mal interpretadas.
Quando falamos da interação entre aspectos emocionais e manifestações físicas, não estamos dizendo que o sintoma é imaginário, inventado ou que está “apenas na cabeça”.
Essa separação rígida entre físico e emocional não corresponde à maneira como nosso organismo funciona.
O estresse provoca respostas fisiológicas que podem ser avaliadas e medidas. Envolve, entre outros mecanismos, o sistema nervoso autônomo e vias neuroendócrinas, incluindo o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Quando persistente, também pode modificar comportamentos relacionados à saúde.
Na vida cotidiana, períodos de estresse podem estar associados a dificuldade para dormir e se concentrar, dor de cabeça, outras dores corporais e sintomas gastrointestinais.
Ao mesmo tempo, uma doença física também repercute emocionalmente. Uma cirurgia, um diagnóstico de câncer, alterações corporais, dor persistente ou perda funcional podem modificar a maneira como uma pessoa se sente, se relaciona e percebe o próprio corpo.
A literatura contemporânea sobre sintomas físicos persistentes trabalha justamente com uma visão multifatorial, na qual mecanismos biológicos e psicossociais podem participar simultaneamente da origem ou da manutenção dos sintomas. Não é necessário escolher entre “é físico” ou “é emocional”.
E aqui existe um cuidado que considero fundamental: o componente emocional nunca deve ser utilizado como um atalho para encerrar rapidamente uma investigação clínica.
Dizer rapidamente “isso é ansiedade” ou “isso é estresse” também pode ser uma forma de não escutar o paciente.
Algumas perguntas que talvez valha fazer de tempos em tempos
Não estou propondo criar mais uma obrigação. E também não precisamos fazer um inventário de sintomas todas as manhãs. Mas talvez algumas perguntas sejam úteis:
- Como tenho dormido?
- Acordo descansada?
- Minha disposição mudou?
- Tenho mantido minha força?
- Tenho me movimentado?
- Existe alguma dor que comecei a considerar normal porque me acostumei com ela?
- Meu hábito intestinal ou urinário mudou?
- Minha alimentação mudou?
- Como está minha sexualidade?
- Ainda tenho prazer nas atividades que costumavam me fazer bem?
E talvez a pergunta mais simples — e uma das mais esquecidas:
Como eu realmente estou me sentindo?
As respostas não precisam produzir um diagnóstico. Servem para perceber mudanças.
Consciência corporal também precisa de equilíbrio
Existe outro extremo.
Quando cada sensação passa a ser monitorada, analisada e interpretada como possível sinal de doença, a atenção ao corpo pode deixar de ser instrumento de cuidado e passar a produzir sofrimento.
Por isso, talvez familiaridade seja uma palavra melhor do que vigilância.
Conhecer o próprio corpo para perceber modificações importantes, sem viver examinando cada sensação.
Nem toda mudança significa doença. Nem todo sintoma precisa de um exame.
Mas um sintoma novo, persistente, progressivo ou diferente do padrão habitual merece ser compreendido.
Saúde não começa apenas quando encontramos uma doença
Com o passar dos anos, tenho valorizado cada vez mais essa ideia.
Cuidar da saúde não é apenas procurar doenças precocemente. É também perceber quando estamos nos afastando do nosso estado habitual de bem-estar.
Às vezes essa percepção levará a uma consulta ou a uma investigação.
Em outras situações, mostrará que precisamos dormir melhor, recuperar força, movimentar-nos mais, rever uma rotina que deixou de ser sustentável ou procurar ajuda para uma sobrecarga emocional.
Não precisamos interpretar sozinhas tudo aquilo que o corpo apresenta.
Precisamos apenas não deixar de percebê-lo.
Talvez, de tempos em tempos, valha fazer uma pergunta muito simples:
Como está o meu corpo hoje?
E dedicar alguns instantes à resposta. Porque, na maioria das vezes, o corpo não começa gritando.
Primeiro, ele muda.
Quando procurar avaliação médica
Procure avaliação quando perceber um sintoma novo, persistente, progressivo ou claramente diferente do seu padrão habitual, principalmente quando estiver interferindo no sono, na alimentação, na capacidade funcional ou na qualidade de vida.
Na mama, além da mamografia anual a partir dos 40 anos, que é para detectar o que a mulher nem o médico percebe com as mãos, também merecem atenção e devem ser motivo para ir ao Mastologista: nódulo endurecido ou que esteja aumentando, secreção espontânea (especialmente sanguinolenta e unilateral), retração recente da pele ou do mamilo, lesão na pele persistente ou aparecimento de linfonodo axilar (íngua).
Algumas situações são diferentes e exigem atendimento imediato: dor torácica súbita, dificuldade respiratória importante, perda de consciência, convulsão ou sinais sugestivos de AVC (derrame), como alteração súbita da fala, fraqueza de um lado do corpo ou assimetria facial. No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo 192.
Perguntas frequentes
1. Estresse e ansiedade podem realmente provocar sintomas físicos?
Sim. Estresse envolve respostas fisiológicas reais e pode estar associado, entre outros sintomas, a alterações do sono, dificuldade de concentração, dor de cabeça, dores e desconfortos gastrointestinais. Isso não significa que todo sintoma de uma pessoa sob estresse seja provocado pelo estresse. Uma queixa nova ou persistente sempre deve ser avaliada.
2. Como diferenciar consciência corporal de preocupação excessiva com a saúde?
Consciência corporal significa reconhecer seu padrão habitual e perceber modificações sem precisar monitorar continuamente cada sensação. Quando a preocupação com o corpo passa a ocupar grande parte do dia, provoca verificações repetitivas, busca constante por exames ou interfere na rotina e na qualidade de vida, essa própria preocupação merece ser abordada.
3. É normal ter novos sintomas depois dos 50 ou durante a menopausa?
Algumas mudanças são frequentes nessa fase, como sintomas vasomotores, alterações do sono, secura vaginal e modificações da sexualidade, que podem ser cuidados e melhorados. Mas não é adequado atribuir automaticamente todo sintoma à menopausa ou à idade. Sintomas novos, persistentes ou relevantes precisam ser analisados individualmente.
Fontes científicas e institucionais
- Khalsa SS, et al. Interoception and Mental Health: A Roadmap. Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging. 2018;3(6):501-513. PMID: 29884281.
- Garfinkel SN, et al. Knowing your own heart: distinguishing interoceptive accuracy from interoceptive awareness. Biological Psychology. 2015;104:65-74. PMID: 25451381.
- O’Connor DB, Thayer JF, Vedhara K. Stress and Health: A Review of Psychobiological Processes. Annual Review of Psychology. 2021;72:663-688. PMID: 32886587.
- Löwe B, et al. Persistent physical symptoms: definition, genesis, and management. The Lancet. 2024;403(10444):2649-2662. PMID: 38879263.
- Instituto Nacional de Câncer — INCA. Detecção precoce do câncer de mama. Orientações sobre breast awareness e sinais suspeitos.
- The Menopause Society. Symptoms. Informações sobre sintomas da transição menopausal, sono, humor, GSM e sexualidade.
- World Health Organization. Stress. Questions and Answers.
- Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192.
Instituto Nacional de Câncer (INCA)Referência pública sobre detecção precoce e consciência mamária.
